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Abelhas do bem se espalham por Salvador

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Em pleno centro da cidade, Jonatas Gusmão vai até a varanda do apartamento e se aproxima de uma caixinha de madeira.  Ela tem gavetinhas pequenas onde estão várias colmeias. O advogado pega um canudinho e começa a sugar o líquido, diretamente dos potinhos de cera construídos pelas abelhas. “Eu tomo, minha esposa também. Forneço também para outras pessoas da família e até para os vizinhos”, diz Gusmão, que cria abelhas sem ferrão há 2 anos.

A cena pode parecer surreal, mas tem se repetido com frequência em várias residências de Salvador e de cidades da Região Metropolitana. Beber mel diretamente da colmeia usando apenas um canudinho, definitivamente, não é ficção.
A façanha está sendo possível devido à ação dos meliponicultores, como são chamados os criadores de abelhas nativas, sem ferrão. E eles são cada vez mais numerosos em áreas urbanas. Estima-se que existem atualmente cerca de 200 espalhados por vários bairros da região metropolitana de Salvador. Juntos, eles mantêm mais de 2 mil colônias de abelhas, instaladas nos lugares mais inusitados da casa, desde janelas de apartamentos até em armários dentro das cozinhas.

Das 400 espécies de abelhas sem ferrão presentes no Brasil, 58 são encontradas na Bahia. A espécie preferida é a Uruçu, conhecida também como abelha nordestina. Segundo o engenheiro agrônomo Rogério Alves, que estuda as abelhas sem ferrão há mais de 40 anos, seja qual for a idade da pessoa, qualquer uma pode ter contato com estas abelhas. “Mulheres, crianças, alérgicos, não tem contraindicação. Ela pode ser criada nas casas, dentro da zona urbana. A lei permite porque ela não apresenta perigo para o ser humano. Não precisa de roupa de proteção”, garante ele, que, além de meliponicultor, também é professor do IFBaiano e autor de vários livros sobre o tema. 

Abelha social 

Por serem mansas, as abelhas sem ferrão  também são consideradas abelhas sociais. Mas nos últimos 3 anos, esta qualidade está ganhando um novo sentido na região metropolitana de Salvador graças ao Projeto  Rede de Meliponários Polinizadores do Estado da Bahia.

Pelo projeto, famílias de baixa renda têm acesso às colmeias de abelhas sem ferrão. No mercado aberto, cada colmeia chega a custar R$ 1,2 mil. Mas, dentro do projeto, as famílias de baixa renda recebem uma colônia pelo valor de duas caixinhas de madeira, R$ 100. Em contrapartida, quando a colônia alcançar a fase de divisão, os beneficiados assumem o compromisso de devolver uma colmeia para os organizadores, que a  repassam para outras famílias.

O projeto foi criado pela freira neo-zelandesa Helen Margaret Caughley e pelo meliponicultor Pedro Viana. O Objetivo é expandir a criação de abelhas sem ferrão, incentivar a preservação ambiental e, ao mesmo tempo, criar uma nova fonte de renda em comunidades carentes. O litro de mel de abelha sem ferrão chega a custar R$ 300, dez vezes mais do que o mel de abelha com ferrão, vendido geralmente entre R$ 30 e R$ 50.

A Rede de Meliponários Polinizadores do Estado da Bahia já envolve mais de 60 famílias de Salvador, Lauro de Freitas e Simões Filho. A maioria do bairro Nova Esperança, na região do Centro Industrial de Aratu, onde a freira atua há mais de 20 anos.

“É muito gratificante, quem cria abelhas também deve ter o compromisso com o meio ambiente. Já começa plantando flores e árvores. As duas coisas devem acontecer juntas. Muitas vezes a gente recebe doações de mudas e ajudamos a replantar”, diz a missionária.

Renda

O mel de abelha nativa chega a custar dez vezes mais do que a abelha com ferrão. Atualmente o litro de mel de abelha sem ferrão chega a ser vendido por R$ 300 reais, enquanto o outro, é comercializado por preços que variam de R$ 30 a R$ 50. Além do sabor diferenciado, um dos motivos seria a pouca oferta do produto. São necessárias 50 colmeias de abelhas nativas para produzir a mesma quantidade de mel que as abelhas com ferrão.

Já o gel própolis está sendo vendido em média por R$ 800 o quilo. A própolis é obtida quando a abelha coleta a resina de árvores e a substância entra em contato com a saliva do inseto.

Segundo Viana, “no período da primavera, quando temos florada em abundância, é possível reproduzir as colônias com rapidez. Aumentar em 15 vezes o número de colmeias, entre setembro e maio. Neste período, dá para realizar quatro divisões. Com duas caixas, se fazem quatro. Com quatro se fazem oito. As oito caixas, por sua vez, podem ser divididas em dezesseis. O índice de aproveitamento é altíssimo. Basta fazer a suplementação alimentar das abelhas, com água e açúcar”.

O própolis se tornou ainda mais valorizado no mercado, quando passou a ser usado também para fins estéticos, na produção de cosméticos e para hidratar a pele. Para facilitar a comercialização, a maioria dos criadores de abelhas sem ferrão vende o produto em potinhos de 170 ml que custam entre R$ 40 e R$ 50.


Qualidade do ar

Além de ajudar o meio ambiente e de gerar renda para famílias carentes, as abelhas sem ferrão também ajudam no controle da qualidade do ar. Isso por que, apesar de serem criadas na zona urbana, se alimentando de flores que entram em contato com a poluição e os metais pesados que circulam pelo ar, as abelhas sem ferrão estão sendo usadas também para medir índices de poluição do meio ambiente.

Uma pesquisa realizada pelo IFBaiano e pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) está verificando a presença de substâncias contaminantes nos produtos gerados pelas abelhas, como o mel e a própolis. O estudo ainda está em andamento, mas Rogério Alves, que faz parte do grupo de pesquisa, já adianta: “Nós passamos os últimos dois anos coletando material na Região Metropolitana, na área do Cia Aeroporto, e em bairros como Lobato e São Tomé de Paripe. E, apesar da pesquisa ainda não está concluída, já podemos afirmar que não há contaminantes nos produtos gerados pelas abelhas, nenhuma substância que afete a saúde da população”.

Lembradas quase sempre apenas como produtoras do saboroso mel, as abelhas também são essenciais para a agricultura e benéficas para o meio ambiente. Elas participam do ciclo natural de preservação ecológica, por serem essenciais no processo de polinização de frutas e flores, ou seja, na manutenção da produção de alimentos. “Sem plantas não existe abelha, e sem abelha não existem plantas. Muitas frutas só existem graças as abelhas que fazem a polinização, transportam o pólen de flor em flor. É assim com a pitanga, a jabuticaba, a seriguela, o melão. Todas dependem das abelhas”, lembra o pesquisador.

“Eu sempre gostei de animais, e quando soube que as abelhas sem ferrão estavam em extinção, quis contribuir para mantê-las aqui”, acrescenta o Jonatas Gusmão, que também é estudante de zootecnia.


Antibiótico natural

O mel de abelha é o produto natural obtido a partir do néctar das flores. A cor, o sabor e o aroma dependem do tipo de flor onde a abelha fez a coleta. “Não existe um mel melhor do que o outro. Tudo depende da flor onde a abelha fez a coleta, mas o que se sabe é que a abelha sem ferrão é mais seletiva. A uruçu, por exemplo, é metida! Ela busca plantas boas, prioriza arbustos mais altos”, diz o especialista Rogério Alves.

De acordo com ele, o mel de abelha, muito além de ser um adoçante natural, é rico em substâncias antioxidantes e antimicrobianas. “Existem trabalhos científicos que comprovam que o mel de abelha sem ferrão é efetivo contra bactérias, é um antibiótico natural, cicatrizante e estimula a defesa do organismo”, acrescenta.

O mel tem 80% de açúcar e 20% de água, por isso funciona como carboidrato, tipo de alimento energético. Já o pólen, por ter de 20 a 22 % de aminoácidos, se constitui em uma proteína. 

Na última década, o mel também caiu no gosto dos grandes chefs de cozinha que fazem parte do movimento Slow Food. O movimento reúne profissionais ou pessoas apaixonadas por gastronomia e que defendem a valorização do produto, do produtor e do ambiente onde o alimento é produzido.
O chef de cozinha Caco Marinho faz parte deste movimento e, entre outras ações, mantém colmeias de abelhas sem ferrão em casa.
“É um mel especial. O meu preferido é o da abelha uruçu, fermentado e curado. É um mel mais úmido, menos doce, menos enjoativo. Quando ele fermenta, ganha acidez e combate o excesso de doçura. Para acompanhar pratos mais gordurosos é perfeito, estimula o paladar”, descreve o chef. “Além disso, estimula o movimento Slow Food, a partir do momento em que as abelhas são essenciais para a preservação do meio ambiente”, completa.

Amor

A ação de valorização das abelhas sem ferrão na Bahia começou em 2008 como uma iniciativa de voluntários como Pedro Viana. Foi nesta época que o ex-petroquímico começou a defender a preservação desta espécie de abelha, considerada inofensiva por possuir o ferrão atrofiado, incapaz de ferroar ou picar o ser humano.

“Foi amor à primeira vista. Eu estava visitando a Fundação Terra Mirim, na região metropolitana, e me mostraram colmeias de abelhas sem ferrão, que eu nem sabia que existia. A partir daí minha vida mudou”.
De lá para cá, a paixão pelas abelhas só aumentou. Pedro começou a pesquisar e estudar os insetos. Conseguiu a primeira colônia há 10 anos. Começou a produção com 4 caixas. Hoje tem 200 colmeias. O meliponicultor mantém um meliponário de produção de mel no Litoral Norte, e outro voltado para produção de colônias na região do Cia Aeroporto.

Nos últimos anos, Viana começou a espalhar a ideia entre os vizinhos, amigos e parentes. É um dos maiores defensores da meliponicultura no Brasil. “As abelhas são alguns dos poucos animais domésticos capazes de reproduzir criadores. São essenciais para a preservação da Mata Atlântica. Cada vez que se derruba uma árvore, mais esta abelha depende do homem”, diz. 
Pedro recentemente fundou, junto com outros ativistas, a primeira Cooperativa de Criadores de Abelhas Sem Ferrão do Estado da Bahia. O nome “meliponicultor”, deriva do nome científico destas abelhas, enquadradas na família Apidea Meliponídea.


Legislação recente

A criação de abelhas sem ferrão na Bahia é prevista na Lei 21.619, aprovada no fim do ano passado. O texto regulamenta a criação de abelhas nativas em ambientes urbanos e define parâmetros para a inclusão do seu mel, que possui umidade inferior a 20%, dentro dos critérios de comercialização.
O texto foi aprovado para diminuir os problemas enfrentados pelos meliponicultores, que até então enfrentavam problemas para comercializar e transportar as colmeias. A criação de abelhas com ferrão segue outras regras de produção. Inclui, por exemplo, regras específicas que preveem distâncias mínimas de áreas urbanas e para o contato com humanos.

História

As abelhas sem ferrão são nativas do Brasil, ao contrário das abelhas africanas e europeias (que tem ferrão) e foram introduzidas a partir da colonização do país. As abelhas sem ferrão já eram criadas pelos índios, que adoçavam os pratos usando o líquido produzido pelos insetos. Por isso, em muitos lugares elas ainda são chamadas de abelhas indígenas.

A introdução das abelhas europeias (com ferrão) começou em 1822. Foram trazidas pelos padres, que queriam produzir velas brancas. É que a abelha nativa produz uma cera escura, que era considerada inadequada pelos religiosos. Já as africanas foram trazidas séculos depois, durante pesquisas desenvolvidas para fomentar cruzamentos da abelha europeia com espécies mais resistentes.

Além do Nordeste do Brasil, as abelhas sem ferrão podem ser encontradas em outros países da América do Sul e Central, nas Ilhas do Pacífico, na Ásia, na Austrália e em alguns países da África.

Enquanto uma colmeia de Uruçu, com uma população de 4 mil insetos, é capaz de produzir cerca de 6 litros de mel por ano. As abelhas com ferrão, na mesma proporção, produzem mais de 15 litros de mel.

Fonte: Correio

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