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Inspiradas pelo movimento Lixo Zero, baianas dispensam descartáveis e mudam a forma de lidar com resíduos

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É um atulhar-se para não atulhar o mundo. A mulher de cabelos vermelhos abre a bolsa e vai tirando dali uma garrafa de água, duas sacolas de pano (uma delas com bolsos, orgulha-se de mostrar), um estojo com canudo e talheres (garfo, faca, colher para sopa, colher para sobremesa, hashis) e, por último, o seu “nenezinho”, prontamente acarinhado num abraço: um copo preto retrátil que conseguiu encontrar depois de muito custo. Por onde anda, a professora de inglês Belle Rodopiano, 25, carrega essas coisinhas consigo, tornadas indispensáveis como são para nós todos a carteira e as chaves. Decidiu, feito meta de vida, dispensar os descartáveis, usados tantas vezes por segundos e que na natureza duram séculos. E aconteceu de estar mais leve.

Desde pequena, Belle se acostumou a separar em casa o lixo que iria para reciclagem, mas só grande reparou que podia diminuir a quantidade de resíduos que gerava, num desejo crescente de que seja o mínimo possível. Há quatro anos, ela trocou os absorventes pelos coletores menstruais, incomodada de imaginar para onde eles iriam. Mais recentemente, há uns cinco meses, comprou um canudo de metal e diz que foi aí que ficou “louca”. A “maluca do lixo”, como as amigas a chamam. 

Outro dia, ela foi almoçar num lugar que tinha talheres normaizinhos mesmo, mas como estavam embalados num plástico, preferiu usar os seus. Quando ficou tentada a comer um nugget numa rede de fast food, levou a caixinha para casa, mesmo que fosse de papel, para tentar reaproveitá-la. Se precisa comprar uma comidinha para viagem, entrega sua marmiteira para fazer as vezes de embalagem. Sacola plástica, então, ela nem lembra a última vez que usou. “Tudo de plástico eu recuso. É normal já as pessoas me olharem estranho. Mas é só uma questão de estar mais atento e não aceitar nada que será usado uma única vez e depois será jogado fora. Lixo não evapora”.

Belle integra um movimento mundial conhecido como Lixo Zero. O livro Zero Waste Home, lançado em 2013 pela francesa Bea Johnson e que no Brasil ganhou o título de Desperdício Zero, é considerado o marco do que passou a ser considerado um estilo de vida. Em 2014, a americana Lauren Singer apareceu no Fantástico, da Globo, exibindo num pote miúdo de vidro todo o lixo que tinha produzido em dois anos, e aí a coisa foi ganhando força no país. 

Aquele potinho é o sonho de consumo de Belle. Quer chegar a ele daqui a alguns anos, mas sabe que a missão é difícil. Seu “sonho de princesa”, diz, seria fazer compras num mercado com produtos a granel. “Imagine chegar e dizer: bote cinco quilos de feijão aqui na minha sacolinha. Mas aqui, a granel, o máximo que você encontra é ração para bicho. E essa é só uma das dificuldades”. 

Contradição

Quando redescobriu seus cabelos cacheados, a publicitária Clícia Pitanga comprou um monte de produtos. Eram dois xampus e quatro máscaras. A prateleira ficava cheia. Nessa época, ela já seguia Lauren no Instagram (@trashisfortossers) e já recusava objetos descartáveis, andando para todo  canto com um kit parecido com o de Belle (leva também uma toalhinha, para não ter que usar guardanapos de papel). Mas ali, de frente para o espelho, foi se dando conta daquela contradição. Era muito plástico. 

Pesquisando na internet, descobriu marcas de cosméticos naturais daqui de Salvador que usavam quase nada de embalagem. Ela mostra orgulhosa as duas barras que substituíram todos os outros produtos.  Uma é o xampu, a outra, o sabonete. “Acaba que dura até mais tempo”. Também passou a usar esponja natural no banho e conseguiu convencer a mãe a utilizá-las também na hora de lavar os pratos.

Aí o negócio foi se multiplicando feito geração espontânea. Clícia passou a fazer o próprio desodorante  (alô, Bela Gil!) com magnésia, óleo essencial, gel de linhaça e gel de babosa e a investir em maquiagens naturais, com menos químicos. “Os sulfatos que estão na maioria dos cosméticos industrializados acabam contaminando a água”.  

Os produtos que encontrou têm embalagens que podem ser enterradas e também têm a opção de refil. Há diferenças pequenas, diz. O batom que usa hoje, por exemplo, não é à prova d’água, porque não tem derivados de petróleo. Mas, tudo bem, ela não pretende mergulhar mesmo com eles. O que não achou foi um jeito  de substituir o esmalte, que ainda por cima tem aquela tampinha plástica. Assim, ela decidiu parar de pintar as unhas. 

No seu último aniversário, de 23 anos, Clícia conseguiu realizar o desejo de que fosse “quase” 100% lixo zero – ela sabe que a meta expressa no nome do movimento é um tanto utópica. Pediu que os convidados não levassem presentes e usou os pratos, talheres e copos de casa mesmo.  Também dispensou as forminhas dos doces, com quem convivemos por tão poucos segundos. Nada ali era descartável. 

A mãe, que está sendo catequizada, corre para mostrar o copo térmico que leva agora quando vai tomar sua cervejinha. “É muito prático, a cerveja fica sempre gelada, e eu ainda tiro uma onda”. E para ilustrar como a filha está levando a redução do lixo a sério, lembra da vez em que estavam no shopping e foram tomar um sorvete. Clícia queria colocar a bola no copo retrátil que carrega, o vendedor se negou. Falou com o gerente, mas não teve jeito. Ficou sem sorvete, já que não tinham casquinha.

Até na hora de comprar roupa, Clícia prefere “as que já estão no mundo”. “A gente se acostumou a comprar em fast fashion, e as roupas são baratas mas se danificam muito rápido... As do brechó são mais atemporais, também. Você tem pra vida”. Corre para mostrar um chapéu de palha que comprou num deles, sem nada sintético. “Com o tempo ele vai se desintegrar naturalmente. É um ciclo que se fecha”. 

Essa é uma frase que Clícia fala muito. O ciclo que se fecha. Para ajudar a natureza neste processo, ela está querendo construir do zero uma composteira para transformar em húmus o lixo orgânico de casa.

Descobertas domésticas

A advogada Daniela Eirado preferiu comprar uma que já estivesse pronta. Ela reparava que aos fins de semana, quando cozinhava, gerava muito lixo orgânico. Ficou encucada em como poderia dar um destino melhor para aquilo. A solução veio por um atalho. Saiu com uma amiga e se surpreendeu quando ela retirou da bolsa um canudo de metal.  Ela levava também os talheres, e Daniela se deu conta como, no escritório, acabava descartando ao menos um garfo e um canudo de plástico todos os dias. 

Resolveu mudar esses hábitos todos, copiando a amiga e excluindo os descartáveis plásticos. O lugar onde comprou o canudo também vendia composteiras. Elas custam entre R$ 240 e R$ 500, a depender do tamanho, como informa Joana Kalid, que há três anos criou a Compostar. Por mês, ela costuma montar 10 delas em Salvador. 

Daniela reuniu umas amigas e Joana foi até sua casa para instalar a composteira e tirar as dúvidas generalizadas. Dá bicho? Fica com mau cheiro? As minhocas chegam pelo Correio? E as respostas são, respectivamente, não, não e sim. Mas é preciso, claro, ter uns cuidados básicos. 

O primeiro deles é livrá-la de um lugar que bata sol. Na composteira não vai nada de origem animal – “as minhocas são vegetarianas”, como Daniela explica, falando já como uma especialista – e também não dá para depositar ali muitas cascas cítricas, já que a acidez prejudica o equilíbrio da coisa. Traduzindo, é bom evitar cebola ou alho demais. Daí, uma vez por semana, é preciso trocar a cobertura seca e dar uma mexida para arejar a terra, por conta da alta umidade de Salvador.

Húmus grátis

Daniela jura que o processo todo não toma mais do que 10 minutos por semana, e ela agora, além de resolver o problema do seu lixo orgânico, ainda tem húmus grátis para o seu jardim e passou a usar o chorume que sai das caixas por uma torneira para adubar suas orquídeas. Descobriu, pasma, que chorume não tem cheiro. Sua composteira fica na entrada de casa, meio escondidinha entre as plantas. O marido não foi um entusiasta de primeira hora da ideia. Achou que aquilo não ia dar certo. Mas agora está “orgulhosíssimo”, diz Daniela, e é o primeiro a exibi-la para os amigos que os visitam. 

Eles também separam os materiais recicláveis, e Daniela costuma levá-los para o ponto de coleta que fica perto da sua casa, em Piatã. “O grande problema da humanidade é lixo. A gente tem que parar de transferir para o outro a responsabilidade que é nossa. Vai chegar uma hora em que o diferente vai ser não separar o lixo. Não reduzir o lixo. Não pensar sobre isso”.

Joana estima que, com as medidas tomadas por Daniela, ela tenha reduzido em 80% o lixo que gerava em casa. Cada brasileiro produz, em média, 387 quilos de resíduos por ano, segundo análise publicada pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Pouco mais da metade desse lixo (59%) vai para aterros sanitários. Em 30% das cidades, não há qualquer iniciativa de coleta seletiva, segundo dados de 2017. 

Resíduos

Num cenário difícil feito esse, a geógrafa Valdirene Dias trabalha para convencer o poder público, a iniciativa privada e as pessoas todas de que há muita “prosperidade” na gestão do lixo. Claro que ela não o chama por esse nome. Fala sempre em resíduo. “Resíduo é recurso natural, é energia, é água, é dinheiro, é emprego e renda. Em Portugal, essa gestão gera 60 mil empregos e cinco bilhões de euros por ano. E Portugal é do tamanho de Pernambuco”. 

A União Europeia estabeleceu que os países-membro devem reciclar ao menos 50% dos resíduos até 2020. A capital campeã do continente é a Liubliana, na Eslovênia, que recicla 90% do lixo que produz. No Brasil, a estimativa é que reles 13%  sejam reciclados, de acordo com o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Quando era adolescente, Val, como prefere ser chamada, andava pelo Alto do Coqueirinho, onde vivia, e se incomodava com o tanto de sujeira espalhada pela rua. Pensava em criar uma central de reciclagem. Mas o “sonho” acabou escanteado. Foi  trabalhar com geoprocessamento. Só depois se reencontrou com a ideia.  Criou, em 2015, a Geo Referência, para empreender na área do meio ambiente e “mudar o mundo”.  

Ela começou trabalhando com prefeituras, instigando a elaboração do plano obrigatório de gestão integrada de resíduos sólidos, e promoveu, em 2017, o Fórum Municipal Lixo Zero Salvador, para dar visibilidade a iniciativas exitosas na área. Há três meses, criou uma outra ação, de gestão de resíduos em condomínios (incluindo o seu, claro). 

O primeiro passo é uma conversa para mostrar o que pode ou não ser reciclado. Depois de separado, o lixo é vendido para cooperativas e o dinheiro volta para o condomínio. Ela fica ali cutucando para que essa verbinha extra seja usada em soluções verdes, como a instalação de placas de energia solar.  

Em março, Val vai receber o título de embaixadora Lixo Zero em Salvador, concedido pelo Instituto Lixo Zero Brasil. Sabe que a missão é árdua, mas igualmente necessária. “Nós precisamos de uma nova revolução, a  ambiental”.  

Fonte: A Tarde

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